Por Kleber Karpov
Nesta quarta-feira (14), o Senado Federal aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que põe fim à escala de trabalho 6×1. A medida garante aos trabalhadores dois dias de repouso semanal remunerado, sendo um deles, preferencialmente, aos domingos, sem qualquer redução salarial. A matéria, que já havia sido aprovada pela Câmara dos Deputados e pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, seguiu para promulgação após receber 75 votos favoráveis e apenas um contrário em ambos os turnos no Plenário.
A medida legislativa estabelece uma redução da carga horária máxima semanal, passando de 44 para 40 horas, com limite de oito horas diárias. O texto aprovado prevê a possibilidade de compensação de horários, assim como a redução da jornada mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho. Algumas das implementações previstas ocorrerão de maneira progressiva. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, expressou a importância da votação ao iniciar a sessão.
“Neste momento, milhões de brasileiros, milhões de trabalhadores e trabalhadoras estão acompanhando esta sessão com esperança. São pessoas que conhecem na própria rotina o valor de um dia a mais de descanso. Tenho certeza absoluta de que vamos cumprir o nosso dever com absoluta responsabilidade, pensando, acima de tudo, no que é melhor para o nosso país”, declarou Alcolumbre.
De autoria do deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG), a proposta foi relatada no Senado pelo senador Omar Aziz (PSD-AM). Sua aprovação em Plenário foi agilizada por um calendário especial, que incluiu cinco sessões de discussão em primeiro turno. Um requerimento, assinado por diversas lideranças partidárias e aprovado pelo colegiado, dispensou as três sessões de discussão em segundo turno. O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) foi o único a votar contra a proposta, mas não fez nenhuma manifestação durante a sessão.
Debates e manifestações de apoio
A sessão de discussão da PEC estendeu-se por mais de cinco horas, com a maioria dos senadores, tanto da base governista quanto da oposição, declarando-se favorável à aprovação. Alguns parlamentares expressaram ressalvas ou pedidos de futuras alterações. O relator, senador Omar Aziz, celebrou o consenso. “Eu vi muitos discursos, aqui, preocupados pontualmente com algumas questões, mas muito me alegra que a unanimidade do Senado vai votar a favor da PEC. A gente entra para a história, Câmara e o Senado”, afirmou Aziz.
O senador Paulo Paim (PT-RS), que ao longo de sua carreira legislativa apresentou diversas proposições pela redução da jornada de trabalho, demonstrou grande emoção durante a sessão. “Tenho certeza de que, em cada canto do Brasil, o nosso povo está cantando, está dançando, está chorando de emoção por ver que, depois de 40 anos, nós estamos dando a liberdade a eles de não terem que trabalhar de segunda a sábado”, disse Paim, que encerra o mandato em 2027 e recebeu homenagens de seus pares.
Eduardo Braga (MDB-AM), líder de seu partido, reforçou que a democracia precisa ir além do funcionamento institucional e alcançar a vida dos trabalhadores. “Quero falar do vigilante, do atendente do supermercado, do trabalhador da construção civil que enfrenta o calor do nosso Amazonas a semana inteira e chega em casa muitas vezes sem força para conversar com a própria família. Essa é a realidade de milhares de amazonenses, e é por eles que eu voto sim”, declarou Braga.
O senador Cleitinho (Republicanos-MG) elogiou o autor da PEC, deputado Reginaldo Lopes, presente na sessão, e pediu sensibilidade e consciência aos colegas. “Essa luta, gente, não é de esquerda nem da direita, não; essa luta é do trabalhador. Vamos votar, vamos fazer o que nós temos que fazer aqui, que é trabalhar, é votar”, afirmou.
Senadoras como Zenaide Maia (PSD-RN), Leany Lemos (PSB-DF), Jussara Lima (PSD-PI) e Dra. Eudócia (PSDB-AL) salientaram o impacto positivo da medida na vida das mulheres, que frequentemente acumulam jornadas de trabalho e responsabilidades familiares. Zenaide Maia questionou o tempo disponível para elas. “Que tempo sobra para acompanhar a criança na escola, ajudar na tarefa, levar o filho ao médico ou, simplesmente, sentar-se e conversar com ele?”, perguntou.
Eliziane Gama (PSD-MA) e Fabiano Contarato (PT-ES) rebateram críticas sobre um possível colapso econômico do país, citando o histórico de outras conquistas trabalhistas, como férias anuais, décimo terceiro salário e licença-maternidade, que enfrentaram argumentos semelhantes no passado.

Ressalvas e visão empresarial
Carlos Portinho (PL-RJ), líder de seu partido, declarou voto favorável, reconhecendo o benefício para o trabalhador. Contudo, alertou para a necessidade de considerar a perspectiva do empregador, enfatizando que não há trabalhador sem empregador e que o país precisa gerar riqueza. “Para que todos esses direitos valham, é preciso que tenha emprego. É preciso que o país produza, que gere riqueza, que distribua a riqueza entre a sociedade”, disse Portinho, apontando para o risco de precarização do trabalho.
Apesar do apoio à PEC, o senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO) sugeriu futuras modificações para proteger empregos. Ele defendeu a jornada flexível, na qual o trabalhador recebe por hora, com remuneração proporcional e garantias sociais. “A jornada flexível tem salário por hora, por escolha do trabalhador, com acordo por escrito. Nessa modalidade, ele pode montar o próprio horário, com férias, 13º, FGTS e previdência garantidos, e com a hora nunca abaixo do salário mínimo ou do piso da categoria”, explicou.
O senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP) também votou a favor, mas argumentou pela importância de aumentar a produtividade e permitir que o trabalhador escolha sua carga horária. Magno Malta (PL-ES) endossou a ideia de que o trabalhador pode desejar usar seu tempo livre para mais trabalho.
Os senadores Alan Rick (Republicanos-AC), Nelsinho Trad (PSD-MS) e Jayme Campos (União-MT) manifestaram voto favorável, porém, ressaltaram a importância de uma transição responsável para as novas regras. “Vamos planejar a transição como está na PEC, de maneira responsável, com diálogo, com previsibilidade. A nossa preocupação é com qualidade de vida e com condições para o nosso setor produtivo assumir, absorver essa nova jornada de trabalho”, defendeu Campos.
Roberta Acioly (Republicanos-RR) solicitou contrapartidas governamentais aos empregadores que deverão se adaptar às mudanças. Nelsinho Trad expressou preocupação com os possíveis impactos financeiros sobre os municípios.
Emenda rejeitada e o futuro da legislação
Oriovisto Guimarães (PSDB-PR), que também votou a favor da PEC, apresentou uma emenda, apoiada por outros 27 senadores, visando esclarecer que a proposta não deveria impactar jornadas já inferiores a 40 horas semanais. O relator Omar Aziz, no entanto, considerou que a emenda alteraria o mérito da PEC, recomendando sua rejeição, o que levou Oriovisto a retirá-la. O relator reconheceu que certos aspectos da proposta, como cargas horárias de setores específicos, precisarão de regulamentação rápida por parte do Congresso.
Apesar da aprovação, a líder do governo no Senado, senadora Teresa Leitão (PT-PE), alertou para a necessidade de vigilância constante, dado que outras propostas menos favoráveis aos trabalhadores já estão em tramitação. Humberto Costa (PT-PE) e Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB) criticaram a oposição, apontando que, apesar do voto favorável, alguns parlamentares já se articulam para reverter as mudanças.
O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), mencionou especificamente a PEC 12/2026, de autoria do líder da oposição, senador Rogerio Marinho (PL-RN). Essa proposta prevê um regime flexível de trabalho com remuneração por hora. “É o inverso do fim da 6×1. Eles querem é isso, é o prevalecer do negociado sobre legislado, como se houvesse igualdade de armas entre patrão e empregado”, criticou Randolfe Rodrigues, desafiando os oposicionistas a retirarem suas assinaturas da PEC 12/2026 para que ela seja arquivada.
Randolfe Rodrigues e Renan Filho (MDB-AL) também criticaram a ausência de alguns senadores da oposição durante a votação. Além do deputado Reginaldo Lopes, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP), autora de uma proposta similar, também esteve presente na sessão.
Kleber Karpov, Fenaj: 10379-DF – IFJ: BR17894
Mestrando em Comunicação Política (Universidade Católica Portuguesa/Lisboa, Portugal); Pós-Graduando em MBA Executivo em Neuromarketing (Unyleya); Pós-Graduado em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde (Unicesp); Graduado em Jornalismo (Unicesp); Extensão em Ciências Políticas por Veduca/ Universidade de São Paulo (USP);Ex-secretário Municipal de Comunicação de Santo Antônio do Descoberto(GO); Foi assessor de imprensa no Senado Federal, Câmara Federal e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Criador do Comitê Virtual (www.comitevirtual.com.br), plataforma de gestão de campanhas eleitorais. Criador do PubliqueAi (www.publiqueai.com), primeira plataforma brasileira de produção técnica de textos jornalísticos ou jurídicos, com uso de Inteligência Artificial; Criador do Quero Meu Carro de Volta (www.queromeucarrodevolta.com.br), lançado em 2012. Serviço de utilidade pública para vítimas de roubos e furtos de veículos em todo o país; Ex-produtor e apresentador do programa Panorama Político na Rádio Federal;














