A mídia alternativa importa e governos começam a perceber isso

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Por Kleber Karpov

Nessas últimas semanas, reportagens em relação as publicidades do Governo do Distrito Federal, tem atingido em cheio um segmento que Política Distrital (PD) é parte integrante, a mídia alternativa. Sob essa ótica, enquanto articulista de PD, resolvi me manifestar e fazer algumas considerações, que eventualmente façam contrapontos a questionamentos sobre a importância ou relevância dos blogs e os conteúdos que produzem ou eventualmente repercutem, para a sociedade.

Em primeiro lugar, tomo como referência um amigo e respeitado jornalista, blogueiro por opção, Chico Sant’Anna, e faço observar que sou admirador do trabalho do nobre colega, que tanto encanta seu público leitor, com reportagens sobre meio ambiente, a história do DF, assim como informa e aponta problemas nas diversas gestões públicas dos diversos governos do DF.

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Embora entenda o foco do questionamento da referida reportagem, tomo a liberdade para discordar de parte das colocações quanto ao direcionamento da publicidade do GDF, ao depreciar a relevância do trabalho realizado por blogs, em detrimento aos grandes veículos.

Declínio da mídia tradicional

Não é preciso recorrer a grandes autores ou pesquisadores para se constatar que o mundo passa por grandes transformações e a mídia é diretamente afetada por tais mudanças. Há um vasto acervo em artigos, reportagens, livros e pesquisas que deixam claro, alterações na relação do consumo, não apenas de notícias, mas dos medias como um todo. Logo, considero ser um grande equívoco, atribuir à mídia alternativa, o declínio das mídias tradicionais.

Diversas pesquisas que apontam, por exemplo, uma queda acentuada no desempenho das audiências das emissoras de TV, em média 17%, segundo dados da Kantar Ibope Media. Dados apontam, ainda, quedas que variam de 20% a 40%, entre grandes redes de TVs do Brasil. Ao mesmo tempo que em proporção inversa, também corroborada por diversas outras, aponta aumento considerável, do consumo de produtos de streaming, em serviços como Netflix, canais do Youtube, dentre outros. Realidade essa que não se restringe as TVs, mas também, atingem em cheio outras redações da mídia tradicional.

Há que se colocar, por exemplo, que nesse mercado em crescente mutação, impuseram a adaptarem de alguns veículos a novas realidades. A Folha de São Paulo, deu um grande exemplo, em 2005, ao se adiantar e criar o UOL. Mais recentemente, o Jornal de Brasília, começou um processo de reestruturação que pode garantir a sobrevivência do jornal.

Por outro lado, novos veículos surgiram e conquistaram o mercado, já adaptados a essa nova realidade, o Metrópoles, surgiu há poucos anos, porém, totalmente antenada e preparada para lidar com as novas realidades do mercado. Não por outro motivo, tem conquistado diversos prêmios relevantes no jornalismo.

Emergência da mídia alternativa

Enquanto editor de PD, participei do processo de fundação de uma Associação Brasiliense dos Blogueiros de Política (ABBP)(2014), a convite do professor Chico (In Memorian), com quem tive a hora estudar em praticamente todos os semestres do curso de Jornalismo. Embora não faça mais parte da ABBP, foi motivo de orgulho, ajudar a ampliar o leque da mídia alternativa no DF, além de mostrar a relevância de blogs e demais veículos da mídia alternativa, comprometidos em entregar jornalismo à sociedade.

Não se pode deixar de levar em consideração a atuação, naquele momento, de entidades como a Associação dos Veículos Comunitários do DF e Entorno (ASVECOM) e do Movimento dos Blogueiros, que teve a frente o jornalista e digital influencer, Eldo Gomes, no processo de luta e reconhecimento dessa ‘mídia alternativa’, – jornais, blogs, rádios e TV’s comunitárias. Eles estão entre os principais responsáveis por conseguir, junto a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), a aprovação de Lei Orgânica nº 74, de autoria da ex-deputada distrital, Luzia de Paula (PSB). A Lei obriga a destinação mínima, por parte do Executivo e Legislativo, a destinação mínima de 10% dos recursos provenientes a publicidade, para tal segmento.

Desde então, a mídia alternativa que, quando muito, chegava a uma centena de profissionais, atualmente, de acordo com dados divulgados pela Secretaria de Estado de Comunicação do DF (SECOM-DF), ultrapassam os 450 veículos, oficialmente registrados junto a Secretaria.

Sob essa ótica, não parece ser coerente, fazer a alusão que tais veículos não são geradores de empregos, ainda que informalmente. Muito pelo contrário, um jornal impresso, pressupõe a relação trabalhista de no mínimo, um jornalista, um fotógrafo e um diagramador. Uma estação de rádio ou TV comunitárias, na mesma ótica também demanda dois ou mais profissionais, de comunicação ou técnicos.

Portanto, se julgar que cada um veículo da mídia tradicional gere ao menos um emprego, seja ele formal ou informal, corre-se o risco de a mídia alternativa, empregar mais que muitos veículos tradicionais, que nos últimos anos, promovem de demissões, em alguns casos, em massa, de profissionais de comunicação, que em muitas ocasiões recorrem à mídia alternativa para garantir a subsistência.

“Olha aê o Correio!” ou relevância da mídia alternativa

Desde a época em que ouvia nos finais de semana, na década de 80, ainda em minha infância, garotos entoar o canto “olha aê o Correio”, ao passar pela rua da casa onde morava, ou nos portões de entrada da Feira Permanente do Gama, para vender o jornal da cidade, muita coisa mudou, e drasticamente.

E, a mídia alternativa, acabou por ganhar um protagonismo, há anos, não pode ser ignorado. Seja enquanto produtores ou divulgadores de conteúdo, seja pela capacidade de entrega dos conteúdos publicados, ao público-alvo ou, por proporcionar que entes políticos estabeleçam contatos com suas bases para divulgar, questionar ou disseminar pontos de vista sobre o processo de gestão de suas comunidades. Os anos pré-eleitorais, são grandes momentos em que essa mídia é demandada.

Vale observar ainda que, para além de governos e do legislativo, a chamada mídia alternativa, também passou a obter o reconhecimento, também parte dos órgãos de controles. Por diversas ocasiões, matérias publicadas, com a devida fundamentação, e/ou provas, serviram de base para a atuação de ministérios públicos e tribunais de contas, para defender os interesses da sociedade.

Em 2015, o então ex-chefe-adjunto de Comunicação Institucional e Mobilização Social, o jornalista e blogueiro, Ricardo Callado, apontou erros cometidos pela gestão do ex-governador do DF, Agnelo Queiroz (PT), por ignorar o impacto da mídia alternativa perante a opinião pública, ao se referir as críticas a gestão do então governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB), que ainda no início do governo, ao dar indícios de seguir o mesmo caminho (Veja Aqui).

“Tanto a Associação Brasiliense dos Blogueiros de Política (ABBP) quanto a Associação de Veículos de Comunicação Comunitária do DF e do Entorno (ASVECOM) são bastante atuantes e fazem a cobertura diária do governo e da política brasilienses. Mas no caso dos blogueiros, a repercussão torna-se grande por conta de propagação de links nas redes sociais. E isto está ganhando força a cada dia. Muitos assuntos foram destacados exclusivamente por estes blogs e chegaram as páginas dos grandes veículos, jornais, rádios e tevês.”, disse Callado ao relatar referenciar uma série de exemplos, da importância da mídia alternativa no contexto da gestão do Distrito Federal.

Comportamentos de governos e mídias

Em tempo, vale lembrar que, em 10 de junho daquele ano, a pressão sob o governo de Rollemberg, em parte de pautas publicadas, exclusivamente, pelas mídias alternativas, resultaram na saída do então chefe da Casa Civil do DF e secretário de Comunicação, o jornalista e também blogueiro, Hélio Doyle, alguns dias antes da manifestação de Callado.

Também vale ressaltar que a gestão de Rollemberg, foi um case no que tange a relação, seja com a imprensa, seja a tradicional ou a alternativa e que houve momentos de tentativas de aproximação do governo com as diversas mídias, sem distinção entre os segmentos, isso durante as gestões dos ex-secretário de Comunicação, Luciano Suassuna e Vera Canfran. Assim como, também, de afastamento e retaliação velada a veículos que propagavam pautas negativas contra um governo, sem gestão, em especial sob a batuta do ex-secretário de Comunicação, Paulo Fona.

Nesse contexto, dois casos explícitos podem ser mencionados, que ficavam claros, a perseguição ao portal Metrópoles, que recebeu denúncias do uso da máquina pública da antiga AGEFIS, órgão do GDF, em relação a remoção de painel mantido pelo portal de notícias em prédio na capital do país. Ou ainda ao próprio PD, que teve suspensão de publicidade, ainda em 2017, além de receber processo na Justiça. Nesse caso em específico, por um erro cometido por esse articulista, ao atribuir à pessoa do governador a adjetivação de genocida, em vez de, ao então governo. Erro esse, talvez, parte de lapso emocional, ao receber denúncia e acompanhar, pessoa com vínculo próximo ao familiar, perder um bebê recém-nascido, dentre outros que tantos que ocorreram no DF naquele período, ocasionado por total omissão por parte da gestão pública.

Por outro lado, se tais perseguições passaram a acontecer, durante a gestão de um certo secretário de comunicação do governo de Rollemberg, por outro, quem acompanha a política do Distrito Federal, percebeu o quão óbvio foi a relação de paz e amor com outros veículos que tentavam de alguma forma enaltecer a falta de gestão do governo. Alguns que por sinal, parecem ter perdurado, mesmo após o final de tal desgoverno. Mas, que se respeitem as paixões de cada um.

Sobre essas relações entre governo e imprensa, em 2016, ocasião em que Rollemberg resolveu ouvir o conselho de Callado em receber a mídia alternativa, chamou atenção de Política Distrital, alguns questionamentos, por parte da opinião pública, que os blogueiros estariam vendidos, por terem se reunido com o governador de plantão. Algo que não aconteceu, seja por parte da grande maioria dos veículos, presentes a referida reunião, ou tampouco de PD, que acabou na lista de retaliação do governo. E, vale ressaltar que, no início do governo de Rollemberg, tais comunicólogos, já contavam com uma lei que garantia a destinação de recursos à tais plataformas.

Produção x divulgação

Outro ponto central, que também deve ser levado em consideração, quando o assunto, se dá em relação a produção de conteúdos. Se por um lado, existe o reconhecimento da importância do papel das mídias alternativas, por outro, a grande maioria desses profissionais, ficam a mercê de sazonalidades, disponibilidades e da própria sorte.

Logo, contar com publicidade, seja do Executivo ou do Legislativo, pode não ser uma opção 100% confiável. Embora, vale lembrar que, esses veículos sejam obrigados a manterem empresas registradas, manterem um jornalista responsável, pagar contador, e arar com as demais despesas normais de qualquer outro cidadão ou empresa constituídas no país.

Com isso, muitos profissionais que atuam nesses veículos, acabam por serem obrigados, a buscar outras fontes de rendas, para poder exercer a atividade, seja blogueiro, ou jornalistas de jornais impressos ou estúdios de rádio ou TV de pequeno porte. Contexto esse, que limita a capacidade de produção autoral de reportagens.

Sob essa ótica, um caminho viável se dá na segmentação de conteúdos de interesses comuns aos seus públicos alvos, por meio da replicação de produções, em geral, de fontes oficiais. Algo visto por muitos como, sem valor jornalístico e que, pessoalmente, discordo de tal visão.

Política Distrital, por exemplo, conquistou uma parcela da sociedade do DF, composta de servidores públicos, em especial, dos profissionais de saúde. Há que se levar em consideração que esse público, atinge uma massa de cerca de 150 mil pessoas, entre profissionais que atuam na administração direta ou indireta. Desses, cerca de 40 mil, apenas na Secretaria de Estado de Saúde do DF.

Nesse contexto, PD, além de produzir matérias sobre o segmento em que se propõe a atuar, também dá vazão a publicações de fontes oficiais, sejam do Executivo, Legislativo ou Judiciário, além de órgãos de controles e da sociedade civil organizada.

Conteúdos esses que encontram índice alto de respaldo e aceitação, tanto por parte do público-alvo direto, bem como da sociedade civil de um modo geral. Não por outro motivo, PD conta com cerca de 11 milhões de leituras de matérias, desde o lançamento ao final de 2014. Isso, com tráfego orgânico, sem publicações pagas, e que pode ser facilmente constatado em qualquer ferramenta de medição de tráfego de conteúdo pela web.

Portanto, o fato de PD ter um público-alvo consumidor de informações produzidas e divulgadas, originadas em fontes oficiais, necessariamente, não compromete o trabalho jornalístico. Até porque seria contraproducente, eventualmente, se produzir um novo conteúdo, para noticiar os mesmos fatos. Vale ressaltar que uma vez que PD tenha se tornado um referencial de informações sobre saúde, ou o funcionalismo, o site de notícias consegue manter uma fidelização de cerca de 50% do leitores que retornam para consumir mais informações publicadas, por saber que no referido site, deve encontrar notícias de interesse.

Visão de governos

Por fim, sem entrar em questões políticas, quanto aos gastos do governo, por ser assunto para outra abordagem, e por ter como certo a ação dos órgãos de controle, para direcionar, recomendar e eventualmente, buscar punição a excessos que venham a ser cometidos pela administração pública. Saber que a SECOM tem autonomia, e principalmente, que tal pasta e o governo como um todo, reconhecem a importância da chamada mídia alternativa, é motivo de orgulho ao perceber que, mesmo ao me formar, após os 40 anos, que a escolha da blogosfera, para atuar no segmento jornalístico, foi uma decisão acertada.

Reconhecimento esse que, pessoalmente, atribuo a seriedade imputada as produções e divulgações que faço chegar aos respectivos públicos-alvo, ao assumir, também, o papel do vendedor de jornais que vendem e entregam seus correios. Sejam essas distribuições, por meio das redes sociais e em grupos de mensagens instantâneas, no caso de blogs e estações de rádio e TV, ou ainda, em locais de grande circulação de pessoas, quando se tratam de produtores de jornais impressos.

No mais, Política Distrital, segue com pleno respeito as instituições e todos os atores, sejam aos profissionais da mídia convencional ou alternativa, ou dos poderes constituídos, sempre pautado na ética e pronto para publicar reportagens, sobre as ações antenadas, ou que não estejam em consonância com os anseios da população do Distrito Federal. Além de torcer para que a chamada mídia alternativa, se paute em qualificação profissional para produzir e prover conteúdos de qualidade ao seus respectivos consumidores.

Kleber Karpov é jornalista, blogueiro,
especialista em Auditoria e Gestão de Serviços de Saúde,
MBA em Neuromarketing (em andamento)
Mestrando em Comunicação Política

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