Chega! Não dá para aceitar mais mortes de profissionais de enfermagem, que podem ser evitadas, avisa o Coren-DF

Brasil responde por um terço das mortes de profissionais da Enfermagem no mundo durante a pandemia.

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Vivemos no país em que mais morrem profissionais da Enfermagem em todo o mundo. De acordo com o último levantamento do International Council of Nurses (ICN), até aqui, cerca de 1.500 trabalhadores de 44 países perderam a vida na linha de frente do combate ao novo coronavírus. Dessas mortes, 519 aconteceram no Brasil e 16, no Distrito Federal. O número representa um terço dos óbitos registrados em todo o planeta e coloca o Brasil como uma pária da saúde pública mundial.

Diante desse quadro desolador, o presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF), Dr. Elissandro Noronha, afirma que é imprescindível que o governo e que todos os gestores dos serviços públicos e privados de saúde continuem vigilantes, observem os protocolos de segurança e façam tudo o que for possível para preservar vidas. “Primeiramente, é absolutamente necessário fazer a testagem dos profissionais sintomáticos e, também, dos assintomáticos, para ter o controle da doença e a real dimensão das infecções entre profissionais da saúde. Precisamos assegurar que esses trabalhadores sejam assistidos e acompanhados em todas as suas necessidades, pois eles estão na linha de frente, arriscando a vida para salvar vidas”, defende.

Em segundo lugar, é necessário assegurar o fornecimento de todos os equipamentos de proteção individual (EPIs) de qualidade e em quantidade suficiente para toda a equipe multiprofissional de saúde. Passado um ano da pandemia, ainda existem instituições de saúde que insistem em fornecer EPIs de péssima qualidade aos profissionais que atuam na linha de frente. “Já realizamos mais de 500 fiscalizações durante a pandemia e constatamos situações de muita vulnerabilidade: máscaras cirúrgicas de qualidade duvidosa, máscaras N95 sendo usadas por até 15 plantões, profissionais recebendo apenas um capote para passar 12h, capotes compartilhados, entre outros absurdos. Isso é inadmissível e tem que ser denunciado, para que possamos autuar as irregularidades”, afirma a gerente de fiscalização do Coren-DF, Dra. Sheila Depollo.

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O terceiro elemento que contribui para o alto número de casos de infecções e mortes é o baixo dimensionamento das equipes de Enfermagem. Faltam profissionais, sobram pacientes e os trabalhadores precisam circular entre diferentes áreas para realizar o atendimento de todos, o que provoca maior circulação do vírus onde menos poderia. “Isso é fácil constatar, basta visitar os hospitais, as UPAs e as UBSs para verificar que a maioria das instituições tem menos servidores do que precisa. Não é de hoje, sempre foi assim e agora temos o agravante da pandemia. A carência de recursos humanos causa sobrecarga de trabalho e precariza o combate à pandemia”, avalia o presidente do Coren-DF, Dr. Elissandro Noronha.

Representante do Distrito Federal no Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), o conselheiro Dr. Gilney Guerra afirma que os profissionais arriscam a vida para salvar outras vidas, muitas vezes, na base do improviso, por falta de estrutura e equipe. “Nós estamos morrendo por dar a cara a tapa e combater essa doença de frente, assim como também fazemos no combate a várias doenças, como tuberculose, dengue, H1N1, cuidando de idosos e crianças sem olhar raça, credo e classe social. Agradecemos as palmas, mas precisamos de respeito e proteção”, reclama.

As estatísticas de mortos não são apenas números, são centenas de mães, filhos, pais e avós que perderam a vida e deixaram para trás amigos e famílias inteiras despedaçadas. Raimundo foi um dos 506 profissionais que já morreram. Internado no começo de agosto, veio a óbito 10 dias depois e deixou cinco filhos. Cristiane também contraiu a doença e teve sintomas leves. “Ninguém ficou bem desde o início da pandemia. Era uma sensação iminente de estar com covid o tempo todo, sabe?”, conta. Ela se lembra do dia em que o marido, já se sentindo debilitado pela doença, mas sem conseguir ser admitido em nenhum hospital, pediu: “me tira daqui, eu não quero morrer em casa”. Ela continua atuando como enfermeira, mas deixou de trabalhar em alas para pacientes com o novo coronavírus. “Não consigo mais entrar lá. Me dá um mal estar muito grande.”

As marcas vão ficar para sempre, mas as feridas ainda estão abertas. A categoria já está esgotada, mas o pior é que não há expectativa de que a situação melhore tão cedo. Afinal, depois de muito imbróglio político, o início da vacinação contra a Covid-19 parece cada vez mais factível. Entretanto, tudo indica que a imunização leve um tempo para surtir efeito coletivo e que os profissionais de saúde tenham de conviver com os efeitos da pandemia sabe-se lá até quando.