Presente especial para o Dia Internacional da Saúde: O SUS e a Atenção Básica de Saúde precisam continuar funcionando

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O Sistema Único de Saúde (SUS) precisa continuar funcionando em época de coronavírus e de distanciamento social. E é exatamente aí que entram os profissionais de saúde do Brasil. Mesmo com a possível exposição às doenças no trabalho, eles(as) são extremamente responsáveis, preparados(as) e solidários(as).

Eles estão sempre lá, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nos hospitais, nas Unidades de Pronto Atendimentos (UPA), nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), nos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192), nos tantos outros pontos das Redes Integradas de Saúde, cuidando da saúde dos indivíduos, famílias e comunidades. E quando se deparam com situações adversas, fome, desastres, epidemias, pandemia, colocam-se na linha de frente, arriscando suas próprias vidas.

Quem trabalha com saúde tem uma missão, que é a de promover a saúde, enfrentando os seus determinantes e condições para assegurar a qualidade de vida para todas as pessoas nos mais diferentes territórios do país. Disso, esses profissionais não abrem mão. Há cerca de 5 milhões de profissionais de 14 categorias que trabalham com saúde no Brasil, pelo menos mais da metade desses, são do corpo da enfermagem e isto significa auxiliares, técnicos(as), enfermeiros(as) e obstetrizes.

Temos sempre que ter em conta que há pelo menos 45 mil equipes da Saúde da Família envolvendo mais de 282 mil Agentes Comunitários(as) de Saúde, os(as) quais, pela situação, devem evitar visitas domiciliares, e contatos diretos,  mas que podem  e devem orientar, informar, cuidar das famílias a eles(as) vinculados(as) pelos mais diversos canais de comunicação, a exemplo de correios eletrônicos, telefones celulares e mídias sociais, que já vem sendo utilizados por eles. Cabendo ao governo provê-los(as) de equipamentos tecnológicos e de proteção individual, preparando-os(as) para este desafiador momento e outros tempos que virão. Afinal, nesses 29 anos de trabalho, já se depararam com o cólera em 1991,[i] ebola em 2014[ii], dengue, em 2015 e 2016, anos marcados pelo pico crescentes (sorotipos 1, 2, 3 e 4)[iii], além da Chicungunha, Zika e da pandemia de Influenza A, causada pelo vírus H1N1, que chegou ao Brasil em junho de 2009. Assim, os ACS e demais profissionais das equipes do saúde da família, seguem salvando vidas e reduzindo danos.

Neste drástico momento é preciso que a rede de Atenção Básica de Saúde (ABS), seja ampliada e fortalecidapara que possa seguir funcionando, dando atenção de forma segura à população. Não podemos esquecer que há mais de 2,5 milhões de gestantes que precisam ser acompanhadas todos os meses. Há brasileirinhas e brasileirinhos que ainda não nasceram, mas precisam do apoio do SUS.

Se as gestantes precisam do pré-natal e parto, as crianças necessitam de imunização e acompanhamento no seu crescimento e desenvolvimento, além de uma ação rápida e precisa em pneumonias e diarreias.

Os hipertensos e diabéticos seguem suas rotinas de visitarem e receberem medicamentos e apoio nas UBS. Infartos, acidentes vasculares cerebrais, problemas de vesícula biliar, de cálculo renal e acidentes com ossos fraturados e com luxação, continuam a acontecer e daí, além das UBS, precisam de hospitais e exames complementares. Isto é, precisam dos profissionais de saúde.

O SUS não pode e não deve parar. Mas temos visto, lido e ouvido que sim, há UBSs que não estão atendendo como deveriam os(as) seus/suas “pacientes”. Isto se deve à decisão política? Falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI)? A população, se não se contaminar com o coronavírus, pode sofrer as consequências de um sistema que nas três últimas décadas, melhor, desde a sua criação, sofre ataques dos mais variados, principalmente pelas disputas do orçamento público pelo setor privado, cujo objetivo é o lucro, na contramão do SUS, que veio para assegurar o direito à saúde e vida. Há que trabalhar contra o coronavírus, assim como outros agravos e adoecimentos da sociedade, mas, há que colocar a Atenção Primária, a Estratégia Saúde da Família, e por consequência, o SUS em primazia.

Este é o desafio, como fazer com que em tempos de quarentena, isolamento e distanciamento social, o SUS chegue para todos(as), com cuidados redobrados para os(as) mais vulneráveis, para aqueles(as) em situações de riscos, e que lhe deem a segurança que o Estado está presente para dar um pouco de tranquilidade a quem fica de alguma forma doente?

Quem poderia ajudar a pensar e a levar adiante propostas, com levantamento de informações, a tomada de decisões estratégicas, o planejamento, a execução e avaliação das políticas públicas de saúde, são os(as) sanitaristas qualificados(as) que existem neste Brasil e que estão preparados(as) para contribuir com os(as) Secretários(as) de Saúde dos Estados (Distrital) e dos municípios, assim como já dão imensa contribuição ao Ministério da Saúde. Eles(as) estão esquecidos(as). Por que será?

Repito, sabemos sim que há um risco imenso em se expor nessas épocas onde há necessidade em se proteger. Mas é preciso que, com todo apoio e proteção, os profissionais de saúde continuem a dar sua imensa contribuição para o povo brasileiro.

Se pelo menos cerca de 48 milhões de brasileiros(as) tem planos de saúde, mais de 150 milhões dependem do SUS. Se os que tem planos podem, em muitos casos, ser atendidos ou falar por alguma forma via telemedicina com seus médicos, os outros dependem, exclusivamente, do funcionamento das unidades básicas, hospitais e demais pontos da Rede de Atenção no âmbito do SUS.

O coronavírus pode cobrar caro sua passagem pela terra. Dia 04 de abril morreu uma técnica de enfermagem e laboratório de 38 anos em Goiânia, uma profissional considerada competente, que estava na linha de frente e que não tinha nenhuma doença. Trabalhava em uma unidade de saúde pública da periferia da capital de Goiás e em um hospital privado. Em sua memória, e em memória de inúmeros(as) anônimos(as), seguiremos defendendo a gestão e vida do SUS.

Na Itália, já morreram 88 médicos contaminados por esse vírus. Faltam números do total dos profissionais de saúde que estão em quarentena ou que morreram por conta dessa pandemia. No Brasil, já sabemos que a conta passa dos milhares que foram afastados temporariamente.

E ainda há os mais vulneráveis, que precisam ter apoio em suas necessidades de saúde, pelo menos as básicas. E isso é responsabilidade dos governantes em todas as instâncias. Não devemos sair de casa, mas saúde não espera e nunca sabemos quando iremos precisar de atendimento. Os mais vulneráveis precisam encontrar acolhimento no SUS, sempre. O SUS foi feito por um esforço do povo e a ele deve servir, como direito fundamental.

 

[i] Cólera chega ao Brasil via Peru e se espalha por todo o país em 1991. Primeiro caso da doença contagiosa ocorre em abril, em Tabatinga (AM), chegando ao Rio no fim do ano. América Latina sofre epidemia, que contamina mais de 250 mil pessoas.

[ii] Após alguns meses de atraso, o Ocidente descobriu em 2014 que o Ebola havia voltado, mais forte do que nunca. Enquanto isso, mais de 6 mil pessoas morreram, a maior parte delas em três países africanos, naquela que é considerada a pior epidemia da doença desde sua descoberta. Em 2014, o Ebola fez vítimas pela primeira vez em outros continentes (até o Brasil teve seus casos suspeitos), gerando reação imediata de agentes de saúde, governos e laboratórios, que passaram a buscar um antídoto para o vírus

[iii] Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), entre 50 milhões e 100 milhões de infecções ocorrem a cada ano em mais de 100 países nos quais a dengue se apresenta de forma endêmica (no Mediterrâneo Oriental, no Sudeste Asiático, no Pacífico Ocidental e nas regiões tropicais da África e das Américas). Quase metade da população mundial corre o risco de infecção. <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/09/12/Por-que-o-Brasil-enfrenta-uma-nova-epidemia-de-dengue>.

Sobre Fátima Sousa

  • Paraibana, 57 anos de vida, 40 anos dedicados a saúde e a gestão pública
  • Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília
  • Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais
  • Doutora Honoris Causa
  • Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital
  • Implantou os Agentes Comunitários de Saúde
  • Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima
  • Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988
  • Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde
  • Foi candidata ao Governo do Distrito Federal, obtendo 65.648 votos