De luvas a desfibriladores, falta tudo em ambulâncias do SAMU-DF

Órgão sofreu forte corte de orçamento entre 2015 e 2018, na gestão Rollemberg. No primeiro ano do atual governo, repasses voltaram a subir

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Por Saulo Araújo

Fim de tarde e o telefone 192 toca. Da base do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), uma ambulância com dois servidores segue para o atendimento de um motociclista caído na Avenida Elmo Serejo, em Taguatinga. A suspeita é de que o condutor tenha sofrido uma parada cardiorrespiratória. Os socorristas recorrem a um autopulse – dispositivo de ressuscitação cardiopulmonar automático —, mas o equipamento está sem bateria. As massagens no peito, feitas manualmente, dão resultado e a vítima é encaminhada estável ao hospital.

O relato acima é de um técnico em enfermagem do Samu do Distrito Federal e revela apenas a ponta de um problema que pode custar vidas. Denúncia feita por um grupo de trabalhadores do órgão ao Metrópoles mostra que, além da falta do equipamento para reanimação cardíaca, as viaturas carecem de praticamente todos os insumos e materiais necessários ao atendimento pleno.

As informações reveladas pelos profissionais foram confirmadas pelo Sindicato dos Auxiliares e Técnicos em Enfermagem do DF (Sindate) e são alvo de investigação do Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT). Em novembro de 2019, a Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde instaurou procedimento para verificar as condições de trabalho no Samu. A Secretaria de Saúde, entretanto, nega a escassez de materiais e diz que “a informação não procede”.

Entretanto, segundo servidores, os problemas são variados. Colares cervicais, por exemplo, são artigos de luxo nos veículos do Samu-DF. O instrumento indispensável em resgates tem a função de imobilizar os feridos, evitando deslocamentos que possam causar fraturas ou traumas. Quem trabalha diariamente nas unidades móveis também se queixa da ausência da pá do desfibrilador, uma espécie de adesivo colocado no peito do paciente capaz de conduzir frequências elétricas a pessoas com quadro de arritmia ou parada.

Sucateamento

Segundo Newton Batista, diretor do Sindate, o sucatamento do Samu começou no ano de 2015, com cortes brutais de investimentos no programa. Ele diz que uma das perdas mais significativas foi a desobrigação de ambulâncias circularem com dois técnicos e um motorista. Agora, a maioria roda com apenas o condutor e um técnico.

“É impossível fazer um atendimento 100% eficaz. Se você acompanhar o trabalho do Samu, vai perceber que em muitas ocorrências os técnicos têm de pedir ajuda a populares ou familiares para colocar pacientes na maca. A falta de efetivo é gritante”, reclama.

A redução no orçamento do Samu comentada por Newton é confirmada por números. Durante todo o governo de Rodrigo Rollemberg (PSB), houve significativa diminuição de recursos empenhados ao serviço. Em 2015, o GDF conseguiu executar 95% de um total de R$ 15.968.391,49 repassados pelo Ministério da Saúde.

No ano seguinte, o valor caiu para R$ 9.002.777,2, contando com 88% de execução. Em 2017, o Samu obteve um pequeno respiro e recebeu R$ 9.368.090,52. No entanto, no último ano da gestão socialista, a verba despencou para R$ 5.767.654,80, configurando somente 52% de recursos liquidados.

Por outro lado, já em 2019, primeiro ano da gestão de Ibaneis Rocha (MDB), o Samu voltou a empenhar quase 100% do dinheiro enviado pelo governo federal. De janeiro a dezembro, foram destinados ao Serviço R$ 13.059.425,03, o que representa 95% do montante encaminhado pela União.

Ministério critica Samu do DF

O Samu do DF é um serviço criado em 2003 e subordinado ao Ministério da Saúde. Ele é destinado ao atendimento e resgate de pacientes em situações de urgência e emergência, seja na rua ou em domicílio, onde haja a necessidade de intervenção especializada imediata e remoção para hospitais e unidades básicas de saúde (UBS). Embora os recursos sejam provenientes da União, quem faz a gestão deles é o Palácio do Buriti.

Em 2017, nota técnica do Ministério da Saúde escancarou os problemas no Samu da capital do país. Responsável por fiscalizar a execução do orçamento enviado para as unidades da Federação para investimento no serviço, o órgão federal apontou deficiência na manutenção dos veículos, ambulâncias sem higiene adequada e índice de atendimento abaixo do recomendável.

Pela má-gestão, a União chegou a cortar, na gestão de Rollemberg, parte dos repasses ao Samu do DF. Segundo o Ministério da Saúde, em 2019 foi feita nova inspeção e o diagnóstico é que, apesar de ainda apresentar problemas, o atual governo melhorou o serviço. Assim, a verba voltou a ser transferida em sua integralidade ao GDF.

Um dos pontos positivos foi a recente aquisição de 19 novas ambulâncias e 20 motolâncias, que são motocicletas equipadas para socorro rápido. Elas são usadas principalmente quando veículos maiores têm dificuldades para chegar ao local em função de congestionamentos, por exemplo.

Fonte: Metrópoles