Rede de incoerências no apoio ao governador Rollemberg

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Por Hélio Doyle

Em 18 de novembro do ano passado, a Rede Sustentabilidade, o partido liderado por Marina Silva, decidiu romper com o governo de Rodrigo Rollemberg (PSB) e entregar os cargos que haviam sido destinados a seus filiados na Secretaria do Meio Ambiente, no Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e na Administração Regional do Lago Norte. Não foi uma decisão unânime, mas liderando os defensores do rompimento estava o deputado distrital Chico Leite.

Hoje, oito meses depois, Chico Leite e outros dirigentes da Rede abriram sorrisos largos ao serem fotografados ao lado de Rollemberg para sacramentar o apoio à sua reeleição. Leite será candidato ao Senado na chapa encabeçada pelo governador que tanto criticou e com quem rompeu. Rollemberg, claro, aceitou alegremente a volta dos renegados.

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Essa é, na verdade, uma história banal na vida política de Brasília e do Brasil. Uma frase do ex-governador, ex-senador, ex-ministro e ex-deputado mineiro Magalhães Pinto é sempre usada para justificar as mudanças repentinas e constantes no cenário político: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou.”

É realmente uma frase adequada para explicar o que, em linguagem direta, chamamos pejorativamente de oportunismo político – ou seja, a habilidade de aproveitar situações e de perceber o momento certo para obter vantagens em benefício próprio, sem preocupações com a coerência ou com questões éticas ou morais.

A Rede participou e usufruiu do governo de Rollemberg por quase três anos, decidindo pelo rompimento menos de um ano antes das eleições e quando as pesquisas mostravam um governador com elevadíssima rejeição e, portanto, poucas possibilidades de reeleição. Isso foi, à época, considerado oportunismo político, mas a acusação poderia ser atenuada se o partido mantivesse sua posição até o final do governo.

O que a Rede fez, porém, foi confirmar o oportunismo de sua decisão anterior e ser oportunista de novo. Sem explicar convenientemente por que o que era tão ruim há oito meses ficou bom agora, o partido resolveu apoiar a reeleição do governador. Encenou um discurso vazio, com críticas ao governo e sugestões para melhorar a gestão, mas no fundo a incoerência tem um só objetivo: tentar eleger Chico Leite para o Senado.

Rasteira
A ideia inicial de Leite era compor a chapa que seria liderada pelo também distrital Joe Valle, do PDT, com apoio pelo menos do PCdoB e do PPL. Mas Valle deu uma rasteira em seu colega de Câmara ao anunciar não só que desistia da candidatura ao governo como tentaria ser candidato ao Senado na chapa liderada por Jofran Frejat. De aliados, os dois passaram a ser possíveis adversários.

Leite fingiu então que seria candidato a governador, mas sem fazer um só movimento nesse sentido. Ficou esperando para ver onde poderia se colocar melhor para tentar a cadeira no Senado e nunca descartou a aliança com Rollemberg. Dizia-se que seu irmão, Valdir Oliveira, secretário de Desenvolvimento Econômico do governo de Brasília, iria se filiar a um partido e deixar o cargo para ser o vice de Rollemberg, o que inviabilizaria a coligação com a Rede. Mas Valdir não se filiou e continuou no governo.

Muitos filiados à Rede tentaram, desde o ano passado, viabilizar o lançamento de um candidato próprio ao governo, até para dar sustentação local à candidatura de Marina Silva e ajudar os candidatos a deputado. O nome mais forte seria Leite, mas ele demonstrava claramente que queria o Senado e para isso, no seu entender, precisava estar em uma coligação para ter mais força e tempo de televisão. O apoio que teria do PCdoB e do PPL era, para ele, insuficiente. Com maioria na direção local, lotada de servidores de seu gabinete na Câmara Legislativa, Leite impôs o que queria.

Parodiando outro político antigo, o ex-governador, ex-ministro e ex-senador Jarbas Passarinho, foi como se dissesse: às favas a coerência.

Fonte: Metrópoles