Lastimável: Superintendente mentiu para deputada sobre realizações de mutirões de cirurgias ortopédicas no HRT?

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Secretaria de Saúde confirma apenas 11, dos 24 mutirões supostamente esperados em amostragem entre julho e dezembro de 2017

Por Kleber Karpov

No dia 10 de janeiro, a deputada Celina Leão (PPS) visitou o Hospital Regional de Taguatinga (HRT), para ver de perto o problema de superlotação no hospital, além de apurar denúncia de prática de assédio moral por parte de gestores, naquela unidade. Na ocasião, a superintendente da Região Sudoeste, a médica Lucilene Florêncio Queiróz informou à parlamentar que a unidade realizava 4 mutirões mensais na unidade. Porém, médico da unidade, questionou tais números.

Sob sigilo de identidade, o médico informou que para acontecer tais cirurgias, necessariamente, deve haver no mínimo três anestesistas na unidade, algo que segundo o profissional, raramente acontece.

“O mutirão da ortopedia que a superintendente afirmou que realiza toda terça-feira não tem procedência, pois só é realizado se tiver três anestesistas no setor. Porém, em geral só tem dois de plantão.”, afirmou.

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O que diz a SES-DF

Ao ser questionado sobre a quantidade de mutirões realizados ao longo dos últimos seis meses de 2017, em nota a SES-DF informou (23/Jan) que, apenas 11 procedimentos foram realizados. “A direção do Hospital Regional de Taguatinga (HRT) informa que de julho a dezembro do ano passado foram realizados 11 mutirões, com a realização de seis cirurgias em cada um. A direção ressalta que os mutirões foram possíveis graças à adequação das equipes, levando em conta jornada de trabalho dos profissionais, além de escalas de férias.”.

Ainda de acordo com a SES-DF, os mutirões devem ser retomados, com a realização de seis cirurgias, “sempre às terças-feiras”.

45%

Porém, ao se considerar as informações repassadas por Lucilene Florêncio à deputada Celina Leão, em tese, considerando que os mutirões ocorrem toda terça-feira é crível que, em um período de seis meses, um total de 24 devessem ser realizados, ou seja, apenas 45% do informado.

Transparência

PD também questionou à Secretaria, a quantidade de pessoas beneficiadas e a atual demanda reprimida de pacientes que aguardam por procedimentos cirúrgicos eletivos e de urgência por parte da SES-DF.

Infelizmente, a SES-DF, do governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB), que teve como uma das principais promessas de campanha, a transparência, parece que o secretário de Estado de Saúde do DF, Humberto Lucena Pereira da Fonseca, evita publicitar números da Secretaria de Saúde.

Isso porque, novamente, a pasta ignorou o pedido de tais informações. Apenas para situar os leitores de PD, em março de 2015, ainda na gestão do ex-secretário de Saúde, João Batista de Souza, na época do escândalo das Órteses, Proteses e Materiais Especiais (OPME), o gestor da pasta, em entrevista a telejornal da Rede Globo, admitiu a existência de 4700 cirurgias eletivas e 250 de urgências, apenas na ortopedia.

Transparência II

Ainda em se tratando de falta de transparência por parte de Humberto Fonseca, vale a penas relembrar que, em ocasião em que Rollemberg divulgava a eficiência da gestão do Hospital da Criança de Brasília José de Alencar (HCB), por meio da Organização Social (OS) Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada (ICIPE). Ao ser questionado por PD sobre o assunto, o próprio governador negou desconhecer o efetivo de 15 mil crianças, no Sistema de Regulação da SES (SISREG), para atendimento no HCB. Mas o chefe do Executivo foi obrigado a admitir a existência, em setembro de 2016, superava 16 mil crianças, que aguardava no Sistema de Regulação da SES-DF para receber atendimento, apenas no HCB.

“Primeiro eu desconheço essa lista de 15 mil pessoas esperando atendimento. A gente tem que avaliar qual é o tipo de atendimento. O atendimento do Hospital da Criança é um atendimento especializado. Mas, sem dúvida, isso vai ser muito reduzido, com a construção do bloco 2 do Hospital da Criança, que vai poder atender toda essa demanda que está reprimida, digamos assim.”, disse Rollemberg à época

À época, PD recebeu a informação, atualizada, solicitada pelo então secretário de comunicação do GDF, Luciano Suassuna, para confirmar se as 15 mil crianças que aguardavam atendimento eram especificamente para o HCB ou para toda a rede. “A Secretaria de Saúde informa que a fila de espera por consultas no Hospital da Criança possui 16.662 pessoas. Esse quantitativo leva em consideração apenas os casos que podem ser atendidos exclusivamente nesta unidade de saúde.”.

Porém, questionado em novembro de 2017, sobre a demanda reprimida de atendimento de crianças, no SISREG para o HCB, a SES-DF, curiosamente, Humberto Fonseca alegou a indisponibilidade de tais informações. “Não há um levantamento específico da demanda reprimida do Hospital da Criança de Brasília (HCB), porque as especialidades oferecidas no HCB também estão disponíveis em outros hospitais da rede. O paciente atendido na Unidade Básica de Saúde que precisa de encaminhamento para alguma especialidade específica é inserido na regulação e será direcionado para a unidade que tiver vaga disponível, incluindo o HCB.”.

Lastimável

Foto: Catarina Porto

Ao ser questionada por PD, Celina Leão, considerou “lastimável” o parecer ‘equivocado’ da superintendência da unidade. Segundo a deputada, ao publicitar informações equivocadas, a gestora criou uma falsa expectativa em relação à população que aguarda uma cirurgia. A parlamentar também se manifestou no sentido de requisitar dados oficiais da SES-DF sobre demandas de atendimentos ambulatoriais e cirúrgicos em toda rede.

“É lastimável a superintendência de uma regional de saúde passar informações equivocadas ao Legislativo. Pois a expectativa é que de fato, o que foi anunciado esteja sendo cumprido. E a expectativa da população, havendo tanta demanda é que de tais mutirões de fato ocorram.”.