Sem repasses do GDF, comunidades terapêuticas podem fechar as portas

Cinco instituições do DF para tratar dependentes químicos sobrevivem de doações sem o dinheiro do GDF

Por Jéssica Antunes

Com o que recebem do governo, as comunidades terapêuticas do DF mal conseguem fazer seus trabalhos de acolhimento, tratamento e recuperação de dependentes químicos. O maior problema é ver a cor do dinheiro que, mesmo pouco, é necessário para manter as instituições. Até agora, a fatura do mês passado está em aberto, à espera de assinatura. Enquanto isso, quem tenta mudar a vida e quem trabalha para isso é afetado diretamente.

A sobrevivência das cinco instituições mantidas com recursos do Fundo Antidrogas do DF tem se dado por meio de doações e artifícios dos diretores para manter o tratamento de 152 dependentes. A diária repassada pelo governo é de R$ 33 por dependente. Em Vicente Pires, o Instituto Crescer pede empréstimos e doações para comprar gás de cozinha. Em Ceilândia, o Renovando a Vida (RAV) respira com o dinheiro da poupança do dono.

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O governo havia destinado para este ano R$ 1,8 milhão à ressocialização de homens e mulheres dependentes de crack, cocaína, maconha, álcool e outros entorpecentes, mas, após contingenciamento feito em janeiro de 2016, ficaram disponíveis R$ 800,9 mil do valor original. No mês passado, foram descontingenciados R$ 360,2 mil. Mas os institutos não receberam nada ainda.

“Dinheiro na conta não tem, é só promessa”, revela a presidente da Associação das Comunidades Terapêuticas do DF e Entorno, Areolenes Curcino Nogueira. Ela e os demais mantenedores das instituições dizem que, desde que a subsecretária de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Justiça, Joana Mello, deixou o cargo no mês passado, os repasses não são realizados.

“Os contratos foram feitos, as prestações de contas também. Está tudo certo. Só falta a fatura ser assinada, e isso tem sido uma dificuldade. Dizem que a Joana teria que assinar, mas ela não é mais a secretária. Quem assume a pasta deveria fazer. Pessoas podem morrer por falta de agilidade do governo”, reclama Areolenes.

Memória

Em fevereiro, o Jornal de Brasília havia denunciado problemas nos repasses. Como consequência, a redução de vagas custeadas pelo Governo do Distrito Federal se tornou realidade. Em 2014, havia 252 leitos, mas caíram para 250 no ano passado e, atualmente, são 152.

Com as dificuldades, instituições fecharam as portas e, mesmo com vagas, as que se mantêm recusam novos acolhidos por falta de recursos.

Saiba mais

A Associação das Comunidades Terapêuticas do DF e Entorno conta que o custo médio mensal de um dependente químico é de, pelo menos, R$ 2 mil. No entanto, recebem R$ 1 mil. O  valor, diz a entidade, é insuficiente para bancar cinco refeições diárias e acompanhamentos psicológico e psiquiátrico.

O Governo de Brasília prevê implementar mais 500 leitos nas instituições até 2019. Essa ampliação, explicou o subsecretário Hugo Sousa Lima, depende da criação de novas comunidades terapêuticas e de trâmite legal para isso.

Representantes têm apenas promessas

Representantes das comunidades terapêuticas dizem que, neste mês, foram três vezes em busca da assinatura, mas só receberam promessas. “Eu não acredito mais. A nossa parte a gente faz há muito tempo. Só queremos que façam a parte deles. Somos tratados com falta de respeito como se mendigássemos, quando só fazemos um serviço que o próprio governo deveria fazer”, desabafou Marcello Rodrigues, da instituição Renovando a Vida (RAV), em Ceilândia.

Os atrasos de pagamento afetam diretamente a vida de pessoas como um senhor de fala mansa que, aos 49 anos, decidiu reescrever o futuro e, há dois meses, passa por tratamento gratuito em uma das comunidades. Morador de Taguatinga, ele se influenciou pelo pai alcoólatra e, aos 17 anos, trocou a escola pela bebida.

“Isso me tirou tudo. Me separou da família, me levou à rua, me impediu de conquistar tudo. A bebida me dominou, e eu perdi o controle”, lembra. Ao completar seis meses, ele passará à reinserção na sociedade. “É uma luta diária porque a dependência é uma doença que não tem cura. Tem que ter decisão e determinação para parar. Eu já sofri bastante”, conta.

Versão oficial

O dinheiro estaria disponível às comunidades terapêuticas até hoje. É o que garantiu, ao JBr., o subsecretário de Prevenção ao Uso de Drogas da Secretaria de Justiça, Hugo Sousa Lima. “Houve um pequeno atraso em relação ao pagamento do mês de abril em função da mudança de gestão. A nova composição tinha que sair no Diário Oficial para que fosse feita toda a burocracia. Não podemos atropelar os trâmites legais”, justificou.

Funcionários em dívidas com o atraso de salários

Não se sabe como os funcionários das comunidades terapêuticas vão trabalhar nesta semana. Não há dinheiro para as passagens. Eles se mantêm nos postos, mas o atraso dos repasses impede que sejam pagos em dia.

As consequências acontecem dentro de casa. O assistente social Junio de Luna, de 33 anos, acumula juros por não conseguir arcar com as dívidas em dia.

Instabilidade

“As contas chegam, mas o salário não. O banco não espera, os juros não são suspensos porque não recebi, a escola do meu filho não espera. Causa uma instabilidade financeira enorme na minha família”, relata Junio. A situação é a mesma dos outros oito funcionários pagos do Instituto Crescer, em Vicente Pires, onde trabalha.

“Essa área já é complicada para o profissional, que já não tem grandes salários. Garanto que a metade trabalha por amor e gratidão”, resume Marcello Rodrigues, diretor  da instituição Renovando a Vida (RAV), em Ceilândia.

Fonte: Jornal de Brasília

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