Terceirização na Saúde deixa 21 idosos cegos em São Paulo. E no DF?

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Falta de esterilização em cirurgias é apontada por principal motivo de infecções que pode, também, ter causado morte de um idoso

Por Kleber Karpov

22 idosos perderam a visão por serem contaminados com a bactéria pseudomonas após passarem por mutirão de cirurgias de catarata em 30 de janeiro deste ano. Os procedimentos foram realizados pelo Instituto de Oftalmologia da Baixada Santista empresa terceirizada contratada em 2014 pela prefeitura de São Bernardo do Campo (SP) que realizou os procedimentos cirúrgicos, no Hospital das Clínicas daquela cidade.

Na ocasião foi realizada uma sindicância por parte da Comissão de Sindicância da prefeitura de São Bernardo do Campo (SP) para apurar as responsabilidades. O resultado foi divulgado na terça-feira (29/Mar) por meio de um relatório que apontou negligência médica na realização das cirurgias. Isso porque foi constatado, por exemplo, a falta de esterilização dos instrumentos cirúrgicos durante a realização dos procedimentos cirúrgicos em 27 dos 22 pacientes que foram contaminados pela bactéria pseudômonas e perderam a visão.

De acordo com o laudo, a equipe não esterilizou os instrumentos entre um paciente e outro, o que disseminou a bactéria. Também foram desrespeitadas práticas de higiene como lavagem das mãos, troca de avental cirúrgico e esterilização de materiais. A equipe ainda compartilhou o material perfurocortante entre os pacientes, mostra o relatório.

Na conclusão do laudo, a origem da contaminação estava nos instrumentos antes do início do mutirão, por isso os primeiros pacientes submetidos à cirurgia foram os mais afetados pela contaminação. “Considerando que os pacientes não contaminados foram os últimos a passarem pelo processo cirúrgico, a hipótese é que a reposição dos líquidos degermantes nas cúpulas utilizados para a higienização dos instrumentais por submersão tenham diminuído a carga bacteriana presente no material não estéril”.

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A secretaria informou que vem prestando toda assistência às vítimas e que determinou o envio do relatório divulgado hoje ao Ministério Público e à Polícia Civil para subsídio às investigações, e aos Conselhos Regionais de Medicina (CRM) e de Enfermagem (COREN), para que apurem e responsabilizem os profissionais.

Morte

Em 23 de fevereiro um dos pacientes, o aposentado Pelegrino Riatto, de 77 anos, morreu após ter uma parada cardíaca. Embora a Secretaria de Saúde do município descarte a possibilidade, a família atribui a morte do idoso a cirurgia nos olhos. Isso porque, para os familiares, por causa da infecção contraída após a contaminação durante a cirurgia Riatto teve que ficar muito tempo sem tomar um remédio para evitar trombose. O paciente teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e complicações por causa da falta da medicação.

Cancelamento de contrato

A secretaria informou que vem prestando toda assistência às vítimas e que determinou o envio do relatório divulgado hoje ao Ministério Público e à Polícia Civil para subsídio às investigações, e aos Conselhos Regionais de Medicina (CRM) e de Enfermagem (COREN), para que apurem e responsabilizem os profissionais.

Fragilidade das Terceirizações

Embora o caso tenha acontecido em São Paulo, a terceirização de serviços na Saúde Pública, também sofre reflexos no Distrito Federal. Esse é ponto de vista de um gestor da Secretaria de Estado de Saúde do DF (SES-DF), que pode para não ser identificado.

“Se você parar para avaliar, tanto as prestadoras de serviços na atividade fim, quanto na atividade meio, são extremamente prejudiciais à Saúde. Embora o caso de São Paulo seja de negligência médica, se observarmos sob a ótica financeira no nosso caso, ano passado nós tivemos diversos serviços paralisados a exemplo das UTIs e das hemodiálises, porque as empresas prestadoras de serviços se recusaram, com toda razão, a prestar serviço ao Estado, uma vez que não estavam recebendo pelos serviços com os atrasos de pagamentos. E isso não se restringe a atividade fim. Quando uma Sanoli deixa de fornecer refeições, uma NJ pare de lavar roupas, uma empresa de limpeza e até uma assistência técnica deixa de prestar o serviço, de fazer a manutenção de equipamentos, toda a dinâmica de atendimento é prejudicada e com isso o cidadão lá na ponta deixa de ter um procedimento cirúrgico realizado.”

Organizações Sociais

O gestor questionou ainda a insistência do governador, Rodrigo Rollemberg (PSB), em implantar as Organizações Sociais (OSs) na gestão da Saúde do DF.

“Nossa cidade teve diversos exemplos de que OSs é um perigo no que tange ao atendimento à população. O Hospital da Criança está sendo questionado. O Ministério Público, os órgãos de controle batem na tecla que implantar OSs é um contrassenso pois teremos uma expansão do que temos assistido aqui no DF nos últimos anos, ou seja, nós vamos ficar reféns dessas empresas travestidas de entidades filantrópicas que no fundo todos sabemos que só servem para escoar dinheiro do caixa do governo. E o pior, sem o menor controle, pois o GDF não consegue gerir nem a própria estrutura, quem dirá fazer fiscalização dos escoamentos. O que nós vamos assistir, se implantarem de fato as OSs, serão termos aditivos e mais termos aditivos a exemplo do que ocorre em Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e demais estados em que o governo atestou a incompetência de fazer gestão para entregar o patrimônio e os recursos públicos para empresas disfarçadas de beneficentes.”

Com informações de EBC