Agenda Capital entrevista presidente do Sindmédico-DF

104


Print Friendly, PDF & Email
Por Delmo Menezes

Natural de Araruna, na Paraíba, é um dos sete filhos de um pequeno produtor rural e uma professora. Casado, pai de três filhos Não esconde que, exceto o apoio da família, não teve nenhum benefício especial para se formar em medicina e direito. Filho de classe média frequentou escolas públicas na Paraíba.

Aos 48 anos, Gutemberg é médico ginecologista e obstetra, médico do trabalho, atua em perícias médicas e detém o registro da Ordem dos Advogados do Brasil, com especialização em direito médico. Presidente do Sindicato dos Médicos do Distrito Federal (Sindmédico-DF), por três mandatos consecutivos, foi conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, representando a Associação Médica de Brasília (AMBr), no período de 2009 a 2014. É membro titular da Academia de Medicina de Brasília.

Polêmico em suas declarações, Gutemberg é defensor aguerrido do Sistema Único de Saúde (SUS) e do sistema público de saúde do Distrito Federal. Enfatiza que a promoção da saúde da população depende, em larga escala, de um corpo de profissionais com um forte laço institucional com o serviço público.

Publicidade

Em entrevista exclusiva ao Blog Agenda Capital, Gutemberg faz duras críticas as organizações sociais, comenta sobre os bastidores da transição do governo, a importação de gestores de outros estados, o processo que responde no conselho de ética do PSB entre outros assuntos.

Durante a transição do governo, na sua visão, quem teria condições de assumir a Secretaria de Saúde do DF?

Nós temos no cenário da saúde do DF, pessoas capacitadas, que conhecem profundamente a estrutura hospitalar da cidade e o processo do trabalho médico. Citando nomes, corremos o risco de cometer injustiças. Temos vários nomes como, por exemplo: O nosso amigo Dr. Paulo Feitosa, ex-diretor do HRAN e responsável pelo programa de saúde do governo, no período de transição, Dr. Renato Lima, ex-diretor do HRAN, irmão do Dr. Davi Lima, temos o Dr. Martinho Gonçalves da Costa, que estava nos assessorando aqui na assembleia, que foi gestor por várias vezes e temos também o Dr. Carlos Augusto Nascimento, que tem uma habilidade na saúde violenta, entre outros. Estou citando nomes de pessoas que em nenhum momento manifestaram o desejo de ser Secretário de Saúde. Eu não gosto de citar nomes para não cometer o pecado do esquecimento.

A escolha do atual secretário Fábio Gondim pelo Governador Rollemberg foi acertada?

O nosso governador tem cometido alguns pecados capitais. O pecado capital mais importante do governo Rollemberg foi à indicação de Fábio Gondim, como Secretário de Saúde do DF. Nada pessoal contra o Fábio, já estive várias vezes com ele, meu relacionamento é institucional. Agora, quando você tem um sistema de saúde destruído como está o nosso, com servidor com a autoestima lá embaixo, precisando ser seduzido, conquistado e amparado, você pega alguém que não é médico, que vem com discurso que não é sedutor, como ele diz: “eu vim para moralizar, eu vim para acabar com o corporativismo na classe médica”, veio de um estado onde nós temos denúncias de desvio de dinheiro nas “OS”. Importou do Maranhão assessor grampeado em conversa com Fernando Murad, divulgado nas redes sociais e pela Polícia Federal, fica difícil concordar com uma indicação dessas. É um secretário que não agrega, não conquista, não tem conhecimento e está aprendendo no exercício do cargo de secretário. Numa crise dessa, não há espaço para aprendiz, nós precisamos de pessoas que conheçam profundamente o sistema, mas não basta somente conhecer. Nós tivemos o João Batista, no início do governo, mas o João não é conhecido na rede, por isso pagou um certo preço por conta disso. É necessário ter um profissional que seja da rede, reconhecido como um grande administrador e que seja sedutor. O nosso secretário atual, poderia ser tudo, um subsecretário disso ou daquilo outro, até secretário de planejamento, mesmo porque ele disse que “entende de gestão”, eu até agora não vi a eficiência dele. O sistema só piora. Ontem (16/02) mesmo eu tive de ir pra televisão pra dizer que o médico está escolhendo quem vai morrer. “Nossos médicos são obrigados a tirar o gerador de marcapasso de um paciente mais estável, para implantar no que se encontra mais grave, como aconteceu esses dias no HBDF”. Só pioraram os indicadores.

A classe médica é acusada de querer controlar a Rede. Existe corporativismo no segmento?

Não. O corporativismo existe dependendo de como você conceitue. Corporativismo é quando você briga para conquistar melhores condições de trabalho e condições salariais. Todas as entidades e categorias nesse aspecto são corporativistas. É corporativista o médico, o auxiliar de enfermagem, o enfermeiro, o dentista, o psicólogo, o farmacêutico, e te digo mais, construiu-se um falso discurso que é o modelo pelo qual o governo se baseia. É questão de prerrogativas, pois cada profissão atua no seu campo de trabalho. Não dá pra aceitar este discurso, até porque se analisarmos os cargos de direção, desde o governo passado, do Agnelo até hoje, são ocupados maciçamente por profissionais não médicos, o discurso é falso.

O senhor acha que houve avanços ou retrocessos nesta gestão?

Retrocesso. Tenho um dado muito importante e gostaria inclusive que você publicitasse isso, porque é uma reivindicação minha e também do Ministério Público. A corporação tem aumento na incidência de óbitos no período 2014 e 2015, que na minha opinião acontece por desassistência e por falta de competência dessa gestão.

20160217_223557_2Qual o conselho o senhor daria para o Governador tirar a saúde do DF da crise?

Aconselhar o chefe do executivo é um desafio. Mas, é evidente que quando você administra e traz corpos estranhos, cria-se um problema. Nós temos em Brasília, a inteligência que a cidade precisa para administrá-la. Eu não preciso trazer o secretário de segurança de Pernambuco. Ao invés de você conquistar os servidores da área, você está ofendendo, está atingindo a autoestima do servidor. A cidade e a secretaria de saúde está em crise.

Presidente, o senhor está respondendo processo no conselho de ética do PSB. Em relação à expulsão, o que o senhor tem a dizer?

Estou respondendo processo no conselho de ética do PSB, e vou passar as suas mãos esta representação. Eu fiquei extremamente feliz e decepcionado ao mesmo tempo. Decepcionado porque a representação foi muito pobre, esperava um documento intelectualmente mais profundo. Feliz, porque na narrativa dos fatos, o senhor presidente interino do partido, na representação dos fatos afirma: “o representado em meados de março do presente ano (2015), coordenou e mobilizou 33 categorias a protestarem contra o Governo do Distrito Federal, mostrando um claro enfrentamento ao governo eleito pelo PSB”. Ora, se a denúncia é porque estou defendendo o servidor público e a economia da cidade, não há por que me entristecer. Ficaria triste se estivesse sendo denunciado por roubo, desvio, ilicitudes, irregularidades e desonestidade.

Comenta-se na cidade que o senhor gostaria de ter sido convidado a ser Secretário de Saúde do DF. Houve esta reivindicação da sua parte?

Em momento algum afirmei isso, apesar dos blogs e outros meios de comunicação, divulgarem que eu queria ser secretário de saúde, que “Gutemberg ao dizer que o médico fica escolhendo o paciente que vai morrer, ele está denunciando isso porque ele queria ser o secretário de saúde”. Falei para o próprio governador em uma reunião, no mês de dezembro de 2014, onde estavam presentes, Marcos Dantas, presidente do partido, Dr. Paulo Feitosa, Dr. Thiago Coelho, Dr. Antônio Geraldo, Dr. Cássio Hernandes e o Governador eleito Rollemberg, ele não tinha tomado posse ainda. Disse a ele que não queria ser Secretário de Saúde, que o nosso candidato era o Paulo Feitosa.

O governo prometeu pagar o aumento dos servidores em setembro deste ano. Será possível?

O governo está com o mesmo discurso do início do ano passado, que não tem dinheiro. Ele está acenando novamente com calote. O problema não é o aumento, não é reajuste, não é composição salarial.  O governo tem a obrigação constitucional de repor as perdas salariais. O calote que foi dado em 2015 foi de 5% e a inflação foi de 10%. Não é nem reposição das perdas. Nós esperamos receber em 2016 as perdas inflacionais que é constitucional, que é o acordo das perdas salariais feito no governo Agnelo.

Recentemente a estrutura da SES/DF foi alterada, sendo criado o cargo de superintendente, que é uma espécie de subsecretário regional. Na sua opinião haverá avanços na gestão? 

É uma incógnita, somente o tempo dirá. O coordenador da regional que já tinha uma tarefa árdua, agora vai se concentrar nas superintendências. Ampliaram-se as atribuições, que antes eram de responsabilidade dos coordenadores regionais. Conheço os valorosos colegas médicos que assumiram as superintendências. São dedicados, amorosos e desprendidos, para com a saúde do Distrito Federal, mas o desafio é maior, as dificuldades são maiores. Esperamos que os nossos superintendentes tenham êxito.

No ano passado, o senhor participou de uma reunião entre deputados e sindicalistas na CLDF. Na ocasião houve vazamento de áudio, que acabou irritando setores do governo. O que o senhor quis dizer de fato, quando afirmou que: “haverá boicote ao governo caso a categoria não receba o reajuste salarial”?

Na realidade, mais grave do que as mentiras, são as “meia verdade”, já dizia o ex-governador da Paraíba, Tarcísio Burity. Editaram o vídeo, não colocaram a frase toda. Então a desonestidade, a deslealdade é grave. Eu fiz naquele momento um apelo na frente de 22 deputados no plenário, no auditório da Câmara Legislativa, com vários Secretários de Estado e dizia: “gostaria de fazer um apelo ao governo, que apresentasse proposta ao movimento sindical, para que não houvesse greve, para que nós pudéssemos sair daquele impasse, porque se não poderia haver boicote e etc”. Foi um apelo, uma sugestão que fiz ao governo. Não foi um atiçamento, foi um apelo, tanto é verdade que ele não atendeu. O meu pedido era no sentido de evitar o confronto, como o que ocorreu na greve dos professores, cidadãos espancados em pleno asfalto da capital da república. Portanto, editaram uma fita de uma forma desonesta e desleal.

20160217 Gutemberg - Perfil (37)No Distrito Federal, os médicos da rede pública de saúde são mal remunerados?

Os médicos da rede pública do DF tem um salário razoável, mas aquém do que merecem.

Um tema bastante debatido em 2015 e também em 2016 são as organizações sociais. O senhor é contra ou a favor das “OS”? A implantação vai resolver o problema da saúde pública e melhorar o atendimento nos hospitais?

Eu sou contra a administração e a privatização da saúde pública através das organizações sociais. A chamada organização social é fonte de desvio de verba, corrupção e caixa dois. Onde passou, deixou rastros e as exceções são porque não foram denunciadas, ou por que não descobriram. Aumenta o custo da assistência, aumenta a exclusão e diminui os procedimentos. No governo onde a crise da saúde tá dando um “nó”, temos que aumentar a inclusão e não a exclusão. Este modelo é um modelo que não deu certo em canto nenhum. Você entra no site do Tribunal de Contas de São Paulo, está lá o relatório. Em Goiânia é a mesma coisa. No Rio de Janeiro acabamos de ver recentemente os escândalos. No Maranhão de onde é oriundo o nosso Secretário de Saúde, também não funciona. O exemplo do DF vocês conhecem. O ICS, Real Espanhola, Fundação Zerbini, e agora está sendo denunciada uma série de irregularidades pelo TCDF sobre a “OS” que administra o Hospital da Criança. Portanto não é um modelo recomendado para nossa cidade, a não ser, que queiram copiar este modelo com desvio de verbas, de corrupção e caixa dois. Eu não creio que o nosso governador vá fazer isso, até mesmo porque é uma pessoa honesta.

Porque faltam tantos medicamentos na Secretaria de Saúde?

A resposta é uma só: falta competência e gestão.

O repasse das verbas federais para a saúde do DF é suficiente?

Não temos dúvida que aumentou a população, a demanda é maior, e os novos meios tecnológicos, são caros. É evidente a necessidade de melhoria e aplicação correta dos recursos.

O senhor será candidato a deputado em 2018? Pretende sair do PSB?

Se for desejo do grande arquiteto do universo, serei candidato a Deputado Distrital em 2018. Eu sou filiado ao PSB respondendo no conselho de ética, se for expulso do partido não poderei ser candidato pelo PSB. A questão ainda está aberta.

Para finalizar presidente, tem como melhorar a saúde no DF?

A saúde no Distrito Federal tem solução, ela tem saída. Basta ter um bom administrador, gestor competente, comprometido, sedutor, que agregue, que saiba aplicar bem os recursos, que converse com o porteiro, com os administrativos, com os médicos, auxiliares de enfermagem, com psicólogos, com farmacêuticos, entenda que são os servidores que constroem a grandeza do nosso sistema público de saúde.

As suas considerações finais?

Eu gostaria de dizer a você e ao blog Agenda Capital, que eu sou acima de tudo um homem esperançoso. É mirando os resultados positivos que pauto as ações diárias.

Fonte: Agenda Capital