Coronel Sheyla Sampaio: “O policial militar precisa ter, ainda mais, a credibilidade da sociedade”

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Primeira mulher a ocupar o posto de Comandante-geral da Polícia Militar do Distrito Federal festeja a redução das taxas criminais, aposta na valorização do profissional e defende a gestão compartilhada nas escolas

Comandante-geral da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), a Coronel Sheyla Sampaio não imaginava que ao entrar na corporação, em 1992, poderia alcançar o maior posto entre os militares. À época, a patente mais alta permitida a mulheres na carreira era a de capitã. Com a mudança de regimento, muito esforço, persistência e competência, ela passou por diversos segmentos da PMDF e foi nomeada pelo governador Ibaneis Rocha para comandar o que ela chama de “grande navio”.

Ex-aluna de Educação Física da Universidade de Brasília (UnB), Coronel Sheyla diversificou a carreira nos ramos de saúde, logística, pessoal, operacional e corregedoria.

E ela espera transformar em oportunidade para outras colegas a porta que acaba de abrir ao chegar ao Comando-Geral. O empoderamento, a saúde física e mental e a satisfação dos profissionais são algumas de suas metas para os próximos anos, como conta em entrevista a Agência Brasília.

Qual o balanço que você faz sobre os primeiros meses à frente da PMDF?

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Tivemos cuidado para trazer algo novo para a sociedade, então lançamos, desde janeiro, a Operação Prioridade. É uma operação que ocorre a cada dois ou três dias nas regiões administrativas. Começamos nas áreas com mancha criminal maior para que fizéssemos o lançamento do trabalho, envolvendo vários batalhões, levando o policiamento montado, de trânsito, cães, radiopatrulhamento, apoio do policiamento aéreo. Levamos todo o aparato para proporcionar maior tranquilidade para a sociedade. A resposta está sendo positiva.

Reduzimos consideravelmente as taxas criminais. No Carnaval não tivemos nenhum homicídio e registro de condição contra a mulher, seja de abuso sexual ou assédio. Dentro das metas dos 100 dias de governo praticamente já conseguimos cumprir todas.

Como é ser a primeira mulher a comandar a PMDF?

Só posso me sentir honrada e grata de ter sido escolhida e pelo governador confiar esse papel a mim. É fácil? Não, mas a esperança e a confiança que têm sido depositadas em mim, inclusive da sociedade feminina, têm sido grandes e tomo cuidado para não cometer erros. Determinados erros podem ser confundidos não porque errei, por ser um ser humano, mas, sim, por ser mulher.

As mulheres têm a capacidade de serem fortes e dóceis.

As mulheres têm a capacidade de serem fortes e dóceis. Tenho conseguido conduzir meu lado familiar e só vou tocar esse navio, que é a corporação, desde que esteja bem para isso. Todas as mulheres conquistam o que querem, basta quererem. Eu digo: ‘Será que aqui dentro algum dia fui preterida por ser mulher?’ Algumas vezes fui preterida em promoções. Já poderia ter sido Coronel desde 2016. Venho concorrendo à condição de ser coronel desde agosto de 2016 e só fui promovida em abril de 2018.

E como colaborar para mudar esse cenário?

Fiz reuniões com oficiais e praças de todos os postos e graduações da corporação e disse: ”Não pensem que vocês vão chegar onde cheguei sendo apenas uma menininha bonitinha dentro de gabinete. A mulher tem que trabalhar e comandar como qualquer homem. Temos que quebrar a mística de que as mulheres não podem ir para a rua”.

Mulheres eram empregadas em locais específicos. Só poderiam trabalhar com crianças e idosos, em shoppings. Eram vistas como bibelôs. Isso foi evoluindo. Tem que quebrar esse paradigma de que as mulheres estão aptas apenas a essas condições. A policial militar pode e precisa trabalhar na rua. Demoramos 36 anos para mostrar que uma mulher é capaz de ocupar o mesmo lugar de um homem. Acredito que as demais que venham depois de mim irão demonstrar que são capazes.

Você enxerga a necessidade de aumentar o percentual de mulheres na corporação?

Não é questão de ampliar, e, sim, de convencimento, de mostrar que são capazes. Não é que vivemos em uma corporação machista. O mundo é machista. O machismo está incutido na cabeça dos homens e, também, das mulheres. A oportunidade existe e, enquanto gestora, tenho que mostrar que elas são capazes. Devo entregar responsabilidades nas mãos delas e dizer “Eu confio em você”.  Elas serão convidadas a fazer parte disso.

O projeto de gestão compartilhada das escolas tem sido positivo para a corporação?

A corporação apoia completamente o projeto das escolas.

A solicitação da sociedade para essas escolas têm sido gigantesca. A corporação apoia completamente o projeto das escolas. O que estamos tentando é não desconstruir o policiamento existente. Estamos buscando formas de emplacar mais escolas sem cair na produtividade da corporação. O policial tem essa condição de trazer segurança, e essa relação  é positiva para a PMDF e reconhecida pela sociedade.

Tem gerado bons resultados…

Tem e agora estamos buscando uma nova parceria. Queremos aproveitar as instalações da corporação para desenvolver atividades esportivas em vários quartéis para a comunidade.

Quais outros projetos têm sido pensados?

Com a defasagem de efetivo a gente tem que usar a tecnologia em nosso benefício. Já existe trabalho nosso, do Parque da Cidade, onde é feito policiamento inteligente por meio de câmeras. Temos vários comandos móveis com essa condição. Temos desenvolvido em comunidades de alto e baixo poder aquisitivo um projeto de uso do WhatsApp onde as pessoas comunicam de maneira rápida os fatos e, assim, temos envolvimento da comunidade.

A gente utiliza ferramentas como aplicativos, monitoramento com câmeras e contato direto com funcionários de empresas de transporte para transmitir casos de roubos a coletivos. Também temos um projeto em confecção para a compra de câmeras para o policial usar. Assim ele terá sempre a abordagem gravada. E, ainda, câmeras internas na viatura para ele se proteger e ter o trabalho protegido.

A saúde física e mental da tropa é sempre uma preocupação. O que tem sido feito nesse sentido?

Temos, hoje, mais de oito mil atendimentos médicos por mês na nossa rede, só de área eletiva. Quando abre pra emergência e urgência são quase 300 atendimentos por dia para todo o sistema de usuários da corporação. São 70 mil vidas atendidas pelo nosso sistema.

Estamos buscando saídas para colocar nosso centro médico e fazer o serviço de urgência e emergência no pronto-atendimento. Com a atual capacidade médica hoje não conseguimos esse serviço. Estamos tentando colocar por meio de uma fundação ou outra modalidade para ter atendimento pleno no centro médico. É proposta do comando.

E a saúde mental?

Temos um centro que trabalha na questão de qualidade de vida, com atendimento religioso. Temos capelães católicos e evangélicos, além de assistência social, para resgatar a dignidade do profissional, de se sentir útil para o trabalho. E ainda contamos com psiquiatra.

Tive uma reunião com o diretor do Centro de Capacitação Física para a gente desenvolver atividade física em todas as unidades operacionais. Para o policial extravasar a condição de estresse. É um programa voluntário e a gente espera que eles aproveitem. Há, também, um curso na corporação que trata de saúde financeira, que também é um problema.

Quais os maiores desafios que terá pela frente na corporação?

Resgatar a satisfação pessoal dos PMs de serem policiais, de serem bem atendidos, de se sentirem protegidos é um dos maiores desafios. Quando o policial perde a esperança é ruim. Ele tem que acreditar que é importante, que a PMDF apoia e entende a presença dele.

É preciso ter, ainda mais, a credibilidade da sociedade. Nenhuma instituição vai sobreviver sem a credibilidade do seu cliente.

É preciso ter, ainda mais, a credibilidade da sociedade. Nenhuma instituição vai sobreviver sem a credibilidade do seu cliente.

E como alcançar isso?

Com reconhecimento do trabalho, entregando medalhas pelo trabalho feito, demonstrando que o que eles fazem traz representatividade para o comando. E, também, melhorando nosso sistema de saúde e o atendimento jurídico e não deixar de lado a especialização e habilitação dos policiais.

Qual recado gostaria de deixar para a categoria?

Toda vez que encaramos um desafio queremos deixar um legado. Um legado eu acho que já deixo por ser a primeira mulher a estar num cargo tão importante, de representatividade no cenário do governo, do Estado.

Espero deixar a característica que aqui está uma oficial que comanda, que é líder da instituição, que se preocupa com os interesses institucionais. Não pretendo fazer melhor ou pior, mas fazer o que todo líder deve fazer. Conseguindo mudar alguns desses fatores atingirei satisfação pessoal e de ter sido importante para a corporação.

E que, a partir de agora, outras pessoas vejam que as mulheres podem, sim, conquistar. A gente não precisa derrubar ninguém, nem tomar lugar do outro. Todos têm seu papel importante na corporação. Quero que os policiais pensem que no momento que estiverem na corporação que eles façam daquele tempo o seu maior comprometimento com o Estado, porque a sociedade espera proteção dele. Contem com um comando extremamente transparente, honesto e comprometido com a legalidade.

Fonte: Agência Brasília