Rollemberg freia atendimento emergencial nos hospitais

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Medidas afetam ainda mais quem mora em Goiás e recorre ao DF

Por Raphaella Sconetto

Quem recorreu a algum pronto-socorro público recentemente deve ter notado mudanças. O governo adotou medidas sob a promessa de desafogar as emergências e fortalecer a atenção primária. Na prática, o modelo causa dúvidas e pacientes de baixa complexidade insistem em procurar o atendimento emergencial. Por outro lado, usuários reclamam que não conseguem consultas nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). A situação afeta ainda mais quem mora em Goiás e tem o DF como referência. Esses pacientes só serão atendidos em casos graves e não são recebidos em UBSs do DF.

Instituída pela Portaria nº 386, que reorganiza os prontos-socorros, as emergências atendem agora somente casos considerados urgentes e emergentes. Aqueles apontados como de baixa complexidade – classificação de risco verde ou azul – devem ser encaminhados à unidade básica de saúde mais próxima da residência e ali serão atendidos. A estimativa da Secretaria de Saúde é de que 70% dos casos que chegavam às emergências eram classificados como verdes.

A dona de casa Elaine Cristina Pinto Castro, 19 anos, não conseguiu atendimento no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib). O filho dela, Rafael Victor, de um ano, está com febre há dois dias. Ela suspeita que seja gripe. “Pediram para procurar o postinho, que casos de gripe podem esperar”, relata a mãe, revoltada.

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Moradora do Riacho Fundo, ela alega que o posto da região não é eficaz. “Sei que se eu levar agora não vai resolver nada, pois precisa estar com consulta marcada. Para consultar, tem que esperar meses na filas para um médico atender lá”, afirma. “Não tenho plano de saúde, tenho que contar com a sorte da rede pública. É sempre difícil o atendimento, mesmo que seja uma gripe. A gente, como mãe, se preocupa com a saúde do filho. Aí tem que dar remédio por conta própria”, completa.

Buraco na cobertura

O impasse seria justamente este: a demora no atendimento nas UBSs. Conforme o JBr. mostrou no mês passado, o governo fechou 2017 com apenas metade das unidades básicas com a atenção primária (50,45%).

A pior situação era na área centro-norte da capital (7,67%), composta por Asa Norte, Cruzeiro e Lago Norte. Com segunda menor cobertura estava a região centro-sul, que compreende Candangolândia, Estrutural, Guará, Park Way, Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo I e II, Setor de Indústria e Abastecimento (SIA) e Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA).

Espera causa piora no quadro

Victor Calebe, de apenas oito meses, está com o corpo todo empolado. Os médicos não sabiam ainda o que causou a reação alérgica na pele, mas a demora no atendimento trouxe piora. Ainda na segunda-feira passada, o pai do bebê, Roni José Lima, 28 anos, foi ao Hospital Regional do Guará, mas não conseguiu atendimento. “Ele estava com poucas manchas. Aí falaram que teria de marcar consulta no posto de saúde para depois ser encaminhado ao hospital”, lembra.

Assim, eles retornaram para casa. Ontem, a criança amanheceu pior. Rosto, braços, peitoral e pernas estavam tomados pelas pintas vermelhas. “Disseram que ele é forte, porque era para estar pior, com febre. Se tivesse sido atendido ontem (segunda), poderia já estar bom”, compara Roni.

Responsabilidade

A dona de casa Nádia Maria Gomes da Silva, 40 anos, esteve ontem no Instituto Hospital de Base procurando atendimento para a filha Débora Vitória, 15 anos, que tem sentido dores no maxilar. Elas são de Lago Azul, município goiano que fica a 50 quilômetros da área central de Brasília. “Minha filha não está conseguindo comer nem falar direito. Não abre a boca por conta das dores”, explica Nádia.

Nádia mora no Lago Azul (GO) e o atendimento da filha foi negado no Base./Foto: Rayra Paiva Franco/Jornal de Brasília.

A mulher saiu de sua cidade para buscar atendimento, mas foi tempo – e gasolina – perdido. “Disseram que preciso de um encaminhamento no posto de saúde com um clínico na minha cidade. Só assim conseguiria atendimento. Lá tem um posto, mas só pedindo por misericórdia que ele pode melhorar. Como vamos fazer?”, questiona.

Nádia não soube das mudanças no atendimento das emergências da capital. “Sempre que vim para cá consegui consulta. Agora, é tentar outro hospital ou voltar para casa sem nada”, critica.

Versão Oficial

De acordo com o secretário de Saúde, Humberto Fonseca, a atual cobertura da atenção DF é de 66,6% – com 540 equipes espalhadas nas regiões administrativas. A expectativa é de que atinja 72% nos próximos meses com a contratação de 59 médicos, aumentando para 597 as equipes da família.

Em relação aos pacientes que vêm de Goiás à capital em busca de consultas, Fonseca alegou que cada município é responsável pela atenção primária de sua população. “O SUS não pode negar atendimento emergencial a ninguém. Só que o acesso aos serviços eletivos tem que ser feito via atenção primária. Quem é de Goiás tem acesso ao DF por meio do tratamento fora do domicílio ou por convênio. Mas quem procurar uma unidade básica de saúde do DF será ouvido e classificado, mas encaminhado para a unidade mais próxima da residência”, esclarece. “A responsabilidade é do município. Eles recebem recursos para isso e precisam fazer parte da atenção primária também”, acrescenta.

O secretário defende o modelo. “Era assim há duas décadas, mas funcionava de forma desorganizada. Cada posto de saúde adotava o modelo que preferia e isso gerou uma multiplicidade nos atendimentos. Agora, convertemos a atenção primária para estratégia de atenção à família. Sistemas universais usam método semelhante”, argumenta.

A Saúde da Família funciona, então, de maneira territorializada, conforme Fonseca. “Cada equipe, composta por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes da comunidade, atendem 3.750 pessoas. Eles acompanham pré-natal, crescimento da criança, acompanhamento do diabético, do hipertenso, saúde do idoso, da mulher e alguns casos de saúde mental”, elenca.

“Mas, mais do que isso, também existem as demandas espontâneas, aqueles problemas de menor complexidade, mas que são agudos. As unidades básicas têm espaço nas agendas para que busquem atendimento ali e não nos hospitais. Os hospitais têm vocação para atender aquilo que é grave. Estamos organizando a rede para melhorar o atendimento”, finaliza.

Saiba Mais

As Unidades Básicas de Saúde funcionam de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. Aos sábados, 7h às 12h. Quem procurar atendimento fora desses horários pode ir a um pronto-socorro ou Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

Classificação de Risco

Os atendimentos das emergências da Secretaria de Saúde do DF são preconizados pelo Protocolo de Manchester. Entenda as cores:
Vermelha – Emergência – Risco de perder a vida – Atendimento imediato.
Laranja – Muito urgente – Risco de perda de função de órgãos – Atendimento em até 10 minutos.
Amarelo – Urgente – Condição que pode se agravar sem atendimento – Atendimento em até 60 minutos.
Verde – Pouco urgente – Baixo risco de agravo à saúde – Atendimento em até 120 minutos.
Azul – Não urgente – Sem risco. Encaminhamento à Unidade de Saúde de referência – Atendimento em até 240 minutos.

Fonte: Secretaria de Saúde

Fonte: Jornal de Brasília

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