Governo de Brasília provoca ciúme em Mary Shelley e Frankenstein

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Por Kleber Ferriche

A autora Mary Shelley poderia assessorar o Palácio do Buriti em questões de menor relevância, que não são emergenciais como os setores que estão em colapso: saúde, educação e segurança.

A cada novo ocupante do maior cargo do Distrito Federal, cabe por tradição criar logotipos, marcas e logomarcas (são coisas distintas), para chancelar a sua passagem pelas tetas da loba.

O último ocupante decorou a frota e a papelaria do GDF com a marca que ficou conhecida como “oração da propina”, numa alusão a uma cena que envolvia três integrantes da investigação Caixa de Pandora. Uma das piores soluções gráficas já vista, de gosto e acabamento duvidosos. E sem conceito, além daquele que ganhou com a semelhança das imagens do ilícito. Frankenstein, de Shelley, era melhor acabado.

Com a chegada da nova governança, havia a esperança de que o brasão do Distrito Federal viesse a ser adotado como marca definitivamente. O brasão é a marca do Estado. Nada impede que projetos tenham identificação visual própria. Nesse quesito o novo GDF acertou. Mas o problema são os outros 50%, ou seja, a definição Governo de Brasília.

Não é possível que a elucubração do palpiteiro que inventou tamanha bobagem tente justificar um equívoco tão absurdo. Está claro na Constituição, se é que alguém se deu ao trabalho de ler o Artigo 32, que o Distrito Federal é indivisível. Das mais de trinta regiões administrativas, menos de vinte têm suas poligonais definidas.O IBGE reconhece talvez umas 19. Isso significa que Taguatinga é Taguatinga e Brasília é Brasília.

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Se o palpiteiro de ocasião achou argumentos para defender uma ideia desastrosa como essa, os residuais positivos só existem na cabeça dele. O problema é que as pessoas não consomem comunicação de massa racionalmente.

A mensagem que fica nunca está no texto – isso é coisa da imprensa -, mas no subtexto – isso é coisa da publicidade. E não pode ser uma publicidade produzida de qualquer maneira, com desleixo, só porque é tradição os governos produzirem material publicitário de baixa qualidade. Mas, diga-se, é tradição apenas no Brasil.

Mary Shelley certamente está com inveja da criatura adotada pelo Buriti para identificar o atual grupo lá instalado. É certo que essa marca vai produzir um residual negativo. Azar do Buriti. E contra a massa não há devaneio que possa ser sustentado, não há achismo que possa suplantar o efeito residual da primeira impressão. É essa que fica.

A marca sugere, subliminarmente, que Brasília tem governo, mas que o restante do DF não. Tão claro assim. Uma marca tem que ser submetida a pesquisas qualitativas criteriosas, ou então é melhor não adotá-la.
Um projeto de lei proibindo esse tipo de ação deveria ser encaminhado pela CLDF, obrigando todos os governantes a utilizar o brasão do Estado para identificar aquilo que é do Estado. E ponto.

A economia com os gastos com papelaria, frota, edições, publicações, placas e outros materiais seria de milhões de reais. Inclusive com materiais eletrônicos e vídeos que poderiam ser reutilizados de um governo para outro, como campanhas de utilidade pública, educativas e institucionais. Mas talvez a ideia seja mesmo a de gastar. E gastar mal, porque certamente essa solução é um tiro no pé.

Existe um certo desconforto, é verdade, quando temos que usar GDF ou Governo do Distrito Federal nas peças publicitárias. Mas se fosse consultado um profissional mais experiente, ele certamente não recomendaria uma solução excludente como a que foi adotada.

Se existem tantos argumentos para abandonar o GDF como marca, que fosse estudada uma solução razoável. E a única que penso ser aceitável é: Governo da Capital. Teria força, conceito e a função pretendida sem ser excludente. Capital maior só pode ser a nossa, a do Brasil. De todos os cidadãos. E de todas as regiões administrativas.

Mary Shelley concordou e Frankenstein está se sentindo lindo…

Fonte: Notibras

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